Crise entre Brasil e Argentina se agrava após ataques de Milei e provoca rebaixamento diplomático
Governo argentino acusa o Brasil de agir por motivos ideológicos após Itamaraty manter embaixador fora de Buenos Aires; tensão entre Lula e Milei atinge novo patamar
A crise diplomática entre Brasil e Argentina atingiu um novo nível nesta terça-feira (4). O governo argentino reagiu duramente à decisão do Itamaraty de reduzir o nível da representação diplomática entre os dois países e acusou o Brasil de agir por “questões puramente ideológicas”. A medida foi anunciada após uma série de declarações ofensivas do presidente argentino, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na prática, o governo brasileiro decidiu manter o embaixador do Brasil em Buenos Aires em território nacional enquanto Milei continuar promovendo ataques ao Brasil e ao chefe de Estado brasileiro. O gesto representa um rebaixamento das relações diplomáticas entre os dois principais parceiros do Mercosul.
Em resposta, a chancelaria argentina informou que o Itamaraty solicitou o retorno do embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para consultas em Buenos Aires. Diplomatas brasileiros, no entanto, ressaltaram que a medida não configura uma expulsão formal do representante argentino, mas faz parte do protocolo adotado em momentos de grave desgaste entre governos.
Em nota oficial, o governo de Javier Milei classificou a decisão brasileira como “unilateral” e afirmou que o Brasil estaria se isolando da região por motivações ideológicas.
A chancelaria argentina também declarou que divergências políticas entre governos não deveriam comprometer as relações de Estado e defendeu que a diplomacia seja guiada pelos interesses permanentes dos dois povos, e não pelas circunstâncias políticas dos governantes.
Como a crise começou
O desgaste entre Brasília e Buenos Aires se intensificou após a participação de Javier Milei na convenção nacional do PL, realizada em São Paulo, no fim de julho. Durante o evento, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, o presidente argentino fez ataques diretos ao presidente Lula, utilizando termos ofensivos.
Nos dias seguintes, Milei voltou a elevar o tom em entrevistas concedidas à imprensa argentina. O presidente acusou o governo brasileiro de liderar uma suposta campanha contra a Argentina durante a Copa do Mundo e afirmou, sem apresentar provas, que Lula teria enviado estrategistas políticos para interferir nas eleições presidenciais argentinas de 2023 em apoio ao então candidato Sergio Massa.
Em nova entrevista exibida no último domingo (2), Milei repetiu as críticas ao presidente brasileiro, voltou a questionar decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) relacionadas à Operação Lava Jato e afirmou que suas declarações eram apenas “palavras espontâneas”, negando que tivessem caráter ofensivo.
Reação do governo brasileiro
Após os primeiros ataques, o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília para demonstrar o descontentamento oficial do governo brasileiro e chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas.
Na ocasião, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou o episódio como grave, mas descartou medidas mais severas. Com a continuidade das declarações de Milei, porém, o governo brasileiro decidiu endurecer sua posição e reduzir temporariamente o nível das relações diplomáticas entre os dois países.
Inicialmente, Lula evitou responder diretamente às provocações do presidente argentino. Dias depois, no entanto, criticou a participação de Milei em um evento político no Brasil e afirmou que não aceitará interferências externas na política nacional.
A nova escalada da crise aumenta a tensão entre Brasília e Buenos Aires e levanta preocupações sobre os impactos nas relações políticas, diplomáticas e econômicas entre as duas maiores economias da América do Sul, que compartilham interesses estratégicos no Mercosul e em diversas agendas de integração regional.
