Zema deixa discurso de gestor em segundo plano e se aproxima de pautas do eleitorado bolsonarista em entrevista à Globo

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OIP (11)

Na sabatina, candidato do Novo combinou defesa de ajuste fiscal e críticas ao governo Lula com anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro e ataques ao STF

Romeu Zema chegou à entrevista da Globo em um momento delicado de sua campanha. Com apenas 3% das intenções de voto no Datafolha divulgado na segunda-feira (24), o candidato do Novo precisava transformar uma aparição de grande audiência em uma oportunidade para se apresentar nacionalmente e, sobretudo, diferenciar-se dos demais nomes da direita.

O resultado foi uma mudança perceptível de ênfase. Embora tenha mantido o discurso econômico associado à sua trajetória como empresário e ex-governador de Minas Gerais, Zema dedicou espaço significativo a temas que o aproximam do eleitorado identificado com Jair Bolsonaro. A defesa de anistia aos condenados pelos ataques de 8 de Janeiro e a afirmação de que não houve tentativa de golpe reforçaram essa aproximação.

A postura diante do Supremo Tribunal Federal foi outro elemento central da entrevista. Zema classificou como “perseguição” decisões relacionadas aos envolvidos no 8 de Janeiro e defendeu que, caso não concedesse anistia, os processos fossem submetidos ao que chamou de um tribunal não político. A fala se soma a uma estratégia de campanha que tem colocado ministros do STF no centro das críticas do candidato.

O movimento tem uma consequência política evidente: Zema deixa de ocupar apenas o espaço de uma direita liberal voltada à gestão pública e passa a disputar também uma parcela do eleitorado conservador que, em outras circunstâncias, poderia se concentrar no bolsonarismo.

Essa aproximação, porém, cria um problema eleitoral. Ao mesmo tempo em que tenta ampliar seu eleitorado para além do campo bolsonarista, Zema precisa evitar ser percebido apenas como mais um candidato da direita. Seu discurso econômico — baseado em controle de gastos, equilíbrio fiscal e crítica à carga de juros — continua sendo uma das principais marcas de sua candidatura.

Na entrevista, ele chamou de “juros de agiota” as taxas cobradas pelo governo federal e relacionou o avanço da dívida de Minas Gerais aos juros incidentes sobre o débito do estado com a União. Também condicionou aumentos reais do salário mínimo ao desempenho da economia e ao equilíbrio das contas públicas.

O contraste entre os dois eixos da entrevista — liberalismo econômico e conservadorismo político — ajuda a explicar o posicionamento de Zema nesta fase da campanha. O candidato procura se apresentar como gestor eficiente na economia, mas adota uma retórica mais dura em temas institucionais e de segurança pública.

A questão é se essa combinação será suficiente para tirá-lo da faixa de 3% das intenções de voto. O Datafolha divulgado na segunda-feira o colocou em empate técnico, considerando a margem de erro, com Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury na disputa pelas posições seguintes às de Lula e Flávio Bolsonaro.

A própria decisão de Zema de não participar do primeiro debate presidencial, realizado pela Band no domingo (23), ajuda a entender sua estratégia. Sua campanha alegou que, sem Lula e Flávio Bolsonaro, o debate havia perdido o propósito. Segundo interlocutor citado pela Folha, a campanha também avaliava que Zema e Renan Santos disputam parte do mesmo eleitorado e que seria difícil prever como seria um confronto direto entre os dois.

Ao escolher a entrevista da Globo como palco principal, Zema apostou em um ambiente de maior controle, com perguntas previamente organizadas e sem o confronto direto entre candidatos. A aposta também elevou a responsabilidade sobre sua performance.

Nesse sentido, a impressão política deixada pela sabatina foi a de um candidato que tenta ocupar um espaço intermediário dentro da direita: suficientemente próximo das pautas caras ao eleitor bolsonarista para disputar esse voto, mas ainda ancorado no discurso de eficiência administrativa, responsabilidade fiscal e redução do tamanho do Estado que caracteriza o Novo.

O desafio de Zema é transformar essa combinação em identidade eleitoral. Até agora, os números indicam que ele ainda não conseguiu converter sua experiência em Minas Gerais em uma candidatura nacional competitiva. A entrevista ampliou sua exposição, mas também deixou mais claro que sua campanha terá de disputar não apenas o eleitorado de centro-direita, mas uma direita já fragmentada entre diferentes candidaturas.

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