Motos nas faixas de ônibus: proposta em Guarulhos mira trânsito fora do horário de pico

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Projeto aprovado para tramitação na Câmara prevê uso compartilhado dos corredores em determinados períodos; Goiânia adotou medida semelhante e ampliou a discussão sobre segurança

Motocicletas poderão ser autorizadas a circular pelas faixas exclusivas destinadas aos ônibus em Guarulhos fora dos horários de pico. A proposta está prevista no Projeto de Lei nº 204/2026, apresentado pelos vereadores Delegado Mesquita e Daniel Santos e deliberado pela Câmara Municipal na segunda-feira (24). O texto agora será analisado pelas comissões da Casa.

A medida não significaria uma liberação imediata ou irrestrita. Pelo projeto, as motos poderiam utilizar os corredores apenas nos períodos de menor movimento, enquanto os horários exatos seriam definidos posteriormente pelo Poder Executivo.

Os autores também propõem regras específicas para evitar que a autorização transforme as faixas em áreas de parada. O texto proíbe embarque, desembarque e parada de motocicletas nos corredores e determina o respeito aos limites de velocidade de cada via. O acesso também poderá ser restringido em cruzamentos devidamente sinalizados.

Caso o projeto seja aprovado, o órgão municipal responsável pelo trânsito terá até 180 dias para regulamentar a medida, estabelecendo os horários e as condições para a circulação.

Goiânia virou referência

A justificativa apresentada pelos vereadores cita Goiânia como exemplo de cidade que adotou a circulação de motocicletas em faixas destinadas ao transporte coletivo.

Em fevereiro de 2025, a Prefeitura de Goiânia instituiu o programa chamado Nova Mobilidade, que incluiu entre as medidas prioritárias a possibilidade de compartilhamento de corredores de ônibus com motocicletas. O decreto estabeleceu a intenção de ampliar a circulação compartilhada em cerca de 250 quilômetros de vias arteriais.

A própria Prefeitura de Goiânia passou posteriormente a divulgar a medida como uma ação voltada à melhoria da mobilidade, destacando a circulação de motociclistas nas faixas de ônibus.

A experiência, entretanto, também provocou questionamentos. Em fevereiro de 2025, um vereador de Goiânia solicitou à Prefeitura um estudo técnico sobre a utilização das faixas por motocicletas. A preocupação apresentada foi avaliar os impactos da medida sobre a segurança de motociclistas, pedestres e demais usuários das vias.

Isso mostra que a discussão não se resume à fluidez do trânsito. O compartilhamento de uma faixa projetada prioritariamente para ônibus também envolve questões de segurança viária, fiscalização, velocidade e convivência entre veículos de diferentes características.

Experiência anterior em Goiânia

Goiânia já havia discutido formas de compartilhamento dos corredores de ônibus antes da atual política de mobilidade. Uma lei municipal de 2016 chegou a permitir, em determinados corredores, a circulação de outros veículos automotores em horários específicos, principalmente à noite, além de liberar o uso integral aos fins de semana e feriados. A legislação também proibia estacionamento e paradas nos corredores.

A regulamentação atual, porém, é mais diretamente voltada à circulação compartilhada de motocicletas. Em 2025, a Prefeitura colocou a medida dentro de um programa mais amplo de reorganização do trânsito e do transporte coletivo.

O que pode mudar em Guarulhos

Em Guarulhos, a proposta parte de uma lógica semelhante: utilizar a infraestrutura já existente para permitir a circulação de motos nos momentos em que a demanda dos ônibus é menor.

Os defensores da medida argumentam que a alternativa pode contribuir para reduzir conflitos entre motociclistas e automóveis nas faixas convencionais e melhorar a fluidez do tráfego. O problema é que, neste momento, não há no projeto apresentado dados independentes que comprovem que a experiência de Goiânia tenha produzido os ganhos de fluidez mencionados pelos autores.

A proposta ainda pode sofrer alterações durante a tramitação na Câmara. Também será necessário definir quais corredores seriam incluídos, quais horários seriam considerados de menor movimento e como seria feita a fiscalização.

Outro ponto central será a segurança. Motocicletas são mais vulneráveis em colisões e podem dividir o mesmo espaço com ônibus de grande porte. Por isso, a eventual regulamentação precisará estabelecer sinalização, limites de velocidade e regras claras de circulação.

O projeto, portanto, abre em Guarulhos uma discussão que já ocorre em outras cidades brasileiras: até que ponto uma faixa criada para dar prioridade ao transporte coletivo pode ser compartilhada com motocicletas sem comprometer a velocidade dos ônibus e a segurança no trânsito?

Por enquanto, a resposta dependerá da análise das comissões da Câmara e, caso a proposta avance, da regulamentação do Executivo. A autorização ainda não está em vigor.

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