Mortalidade infantil expõe desigualdades entre São Paulo e Guarulhos
Brás registra pior índice entre os 96 distritos da capital, enquanto Guarulhos apresenta taxa de 9,97 mortes por mil nascidos vivos, segundo dados baseados no DATASUS.
O Brás, na região central de São Paulo, registrou em 2025 o maior índice de mortalidade infantil entre os 96 distritos administrativos da capital paulista. Segundo o Mapa da Desigualdade da Primeira Infância, elaborado pela Rede Nossa São Paulo, foram 20,07 mortes de crianças com menos de 1 ano para cada mil nascidos vivos — praticamente o dobro da média municipal, de 10,07.
O levantamento, divulgado nesta semana, revela uma diferença expressiva dentro da própria capital. Enquanto o Brás aparece na pior posição, Moema, Perdizes, Jaguara e Marsilac não registraram mortes infantis no período analisado. O indicador é utilizado para avaliar as condições de saúde de mães e crianças e está relacionado a fatores como pré-natal, assistência ao parto, atendimento neonatal, vacinação, saneamento e condições de moradia.
O cenário chama atenção também para a Região Metropolitana de São Paulo, onde está Guarulhos, município vizinho à capital e um dos maiores do Estado.
Guarulhos tem indicador inferior ao Brás, mas ainda enfrenta desafios
Em Guarulhos, os dados disponíveis mostram um cenário diferente do observado no Brás. Uma compilação baseada nos sistemas SIM e SINASC, do Ministério da Saúde, aponta taxa de 9,97 mortes por mil nascidos vivos em 2024, abaixo da média paulista de 10,52 e distante do índice de 20,07 registrado pelo Brás em 2025.
Os números precisam, porém, ser comparados com cuidado, porque os períodos de referência não são exatamente os mesmos. O dado apresentado pelo IBGE para Guarulhos ainda registra 13,31 óbitos por mil nascidos vivos em 2023, com base em informações do DATASUS. O Observatório de Políticas Públicas do próprio município informa que, naquele ano, Guarulhos teve 17.504 nascimentos e 233 óbitos de crianças menores de 1 ano.
A diferença entre as bases reforça a importância de considerar o ano e a metodologia antes de estabelecer comparações diretas. Os sistemas oficiais de saúde permitem acompanhar a evolução do indicador ao longo do tempo e identificar onde estão os principais pontos de atenção.
Cidade de 1,3 milhão de habitantes
Guarulhos tem uma população estimada em 1,349 milhão de habitantes, segundo o IBGE, e é o segundo município mais populoso do Estado de São Paulo. O Censo 2022 contabilizou 1.291.771 moradores.
Para uma cidade desse porte, os indicadores relacionados à primeira infância têm peso importante no planejamento da rede de saúde. A mortalidade infantil não deve ser analisada apenas como um número isolado: ela funciona como um indicador das condições de vida e da capacidade do sistema de saúde de acompanhar gestantes, recém-nascidos e crianças.
O próprio Plano Municipal de Saúde de Guarulhos estabeleceu, para o período de 2022 a 2025, metas de redução da mortalidade infantil. O documento previa que a taxa, que tinha como referência 12,45 óbitos por mil nascidos vivos em 2019, chegasse a 10,85 até 2025.
O que os números dizem sobre a Grande São Paulo
A comparação entre Brás e Guarulhos também ajuda a evidenciar uma característica recorrente nos indicadores sociais da região metropolitana: as médias municipais podem esconder diferenças importantes entre territórios.
Na capital, o Mapa da Desigualdade mostra justamente esse fenômeno. O Brás aparece com 20,07 mortes por mil nascidos vivos, enquanto distritos como Moema apresentam índice zero. O levantamento também encontrou diferenças importantes em indicadores de gravidez na adolescência e acesso ao pré-natal.
A desigualdade não se limita à localização geográfica. Condições de renda, habitação, saneamento, acesso aos serviços públicos e acompanhamento durante a gestação podem influenciar os resultados. Segundo análise publicada pelo Jornal da USP sobre o levantamento, a concentração de hospitais de alta complexidade no centro expandido da capital também contribui para ampliar as dificuldades enfrentadas por moradores de áreas mais vulneráveis.
Pré-natal e atendimento neonatal são pontos estratégicos
A redução da mortalidade infantil depende de uma cadeia de cuidados que começa antes do nascimento. O acompanhamento adequado da gestação permite identificar precocemente situações de risco, enquanto a assistência durante o parto e o atendimento ao recém-nascido são fundamentais para evitar mortes que podem ser prevenidas.
Em Guarulhos, a rede de atendimento inclui unidades de atenção básica e hospitais que atendem gestantes e recém-nascidos, entre eles a Maternidade Jesus, José e Maria e o Hospital Geral de Guarulhos. A cidade também conta com a estrutura da Secretaria da Saúde – SS para a gestão da rede municipal.
Os dados oficiais permitem que gestores identifiquem regiões com maior necessidade de acompanhamento e direcionem ações de pré-natal, vacinação, assistência social, saneamento e atenção à primeira infância.
Indicador serve de alerta para políticas públicas
O caso do Brás mostra que mesmo dentro de uma das maiores cidades do país podem existir diferenças muito grandes nas condições de sobrevivência das crianças. Para Guarulhos, os números disponíveis indicam uma situação menos crítica que a registrada no distrito paulistano, mas também mostram que a mortalidade infantil continua sendo um indicador que precisa ser acompanhado de forma permanente.
Mais do que estabelecer um ranking entre cidades ou bairros, os dados ajudam a responder uma questão central para as políticas públicas: onde estão as crianças e gestantes que enfrentam maior risco e quais serviços precisam ser reforçados nesses territórios?
Em uma região metropolitana integrada como a Grande São Paulo, essa discussão ultrapassa os limites administrativos. O desempenho de Guarulhos, São Paulo e dos demais municípios do entorno está ligado à capacidade de garantir acesso oportuno à saúde, especialmente durante a gestação, o parto e os primeiros meses de vida.
