Gravações da Operação Frankmobile mostram negociação para desbloquear celulares roubados em SP

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Áudios autorizados pela Justiça registram investigados procurando assistências técnicas para retirar bloqueios e registros de roubo; serviço de desbloqueio era oferecido por até R$ 300.

Gravações autorizadas pela Justiça no âmbito da Operação Frankmobile mostram investigados negociando com funcionários de assistências técnicas procedimentos para desbloquear celulares roubados ou furtados e retirar registros que poderiam impedir a utilização e a revenda dos aparelhos em São Paulo.

Em uma das conversas, uma mulher pergunta se seria possível retirar do IMEI de um celular o registro de roubo. Em outra gravação, uma funcionária informa que o serviço de desbloqueio custava a partir de R$ 250.

Os áudios fazem parte da investigação conduzida pelo Ministério Público de São Paulo, em conjunto com as polícias Civil e Militar, sobre uma organização suspeita de atuar em diferentes etapas do comércio ilegal de celulares — do roubo e furto à receptação, adulteração, desbloqueio e posterior revenda.

A Operação Frankmobile cumpriu 84 mandados de busca e apreensão na Grande São Paulo e em cidades de Goiás. Ao todo, 15 pessoas foram presas durante a ação.

Desbloqueio poderia custar a partir de R$ 250

Em uma das conversas interceptadas pelos investigadores, uma mulher procura uma funcionária de assistência técnica e pergunta se seria possível retirar a restrição relacionada a um aparelho registrado como roubado.

A funcionária explica que primeiro precisaria verificar o modelo do celular e o tipo de bloqueio existente. Em outro áudio, a mesma funcionária afirma que determinado procedimento seria definitivo e que o preço começaria em R$ 250. Segundo ela, aparelhos mais novos precisariam passar por testes para verificar se o desbloqueio seria possível.

Em seguida, ela menciona a utilização de quatro programas pagos e estima que o serviço poderia chegar a R$ 300. Outra gravação mostra um homem procurando a assistência depois que um cliente não conseguiu recuperar a senha do iCloud de um iPhone 11. Ele pergunta quanto custaria para redefinir o aparelho.

Segundo o Ministério Público, parte das ferramentas utilizadas nesse tipo de procedimento é disponibilizada por plataformas sediadas fora do Brasil.

Adulteração do IMEI dificulta rastreamento

Para os investigadores, uma das etapas mais importantes da cadeia criminosa é a modificação técnica dos aparelhos. O IMEI funciona como uma espécie de identificação do celular. Quando o número é adulterado, segundo o Ministério Público, torna-se mais difícil relacionar o aparelho que está sendo comercializado ao registro original de roubo ou furto.

O promotor de Justiça Luiz Fernando Bugiga explicou que a alteração do IMEI compromete a rastreabilidade do equipamento. Segundo a investigação, após essa etapa, um aparelho que originalmente constava como roubado pode passar a circular com outra identificação, dificultando a localização de sua origem.

Quatro etapas

O Ministério Público divide a estrutura investigada em quatro núcleos que funcionariam de maneira interligada.

Núcleo 1 — Subtração: reúne suspeitos de roubos, furtos e outros crimes patrimoniais envolvendo celulares.

Núcleo 2 — Receptação e invasão: seria responsável por receber rapidamente os aparelhos depois dos crimes. Nesta etapa também aparecem os chamados “icloudeiros”, que tentariam acessar contas, recuperar ou redefinir senhas e contornar mecanismos de proteção dos dispositivos.

Núcleo 3 — Desbloqueio e adulteração: envolve técnicos, assistências e pontos comerciais apontados como responsáveis por desbloquear aparelhos, modificar IMEIs, alterar componentes e desmontar celulares para reaproveitamento de peças.

Núcleo 4 — Comercialização: reúne pessoas e empresas suspeitas de recolocar os aparelhos ou componentes no mercado, inclusive por meio de estruturas empresariais e documentação que poderiam dar aparência de legalidade aos produtos.

Para o Gaeco, a existência dessa cadeia ajuda a explicar como celulares roubados ou furtados conseguem deixar rapidamente as mãos dos criminosos e voltar ao mercado.

Rua Guaianases aparece como polo de distribuição

A região da Rua Guaianases, entre Santa Ifigênia e Campos Elíseos, aparece na investigação como um dos principais pontos de recepção dos celulares.

Segundo o material reunido pelo Ministério Público, pesquisas em sistemas policiais identificaram mais de 500 registros de ocorrências envolvendo celulares com referência à Rua Guaianases em pouco mais de dois anos. Outro elemento considerado pelos investigadores foi a repetição dos sinais de rastreamento. Aparelhos pertencentes a vítimas diferentes e sem relação entre si teriam indicado a mesma região, principalmente as ruas Guaianases, Aurora e Timbiras.

Para o MP, a concentração sugere que o local funcionaria como uma espécie de centro logístico, onde os aparelhos seriam recebidos, armazenados por pouco tempo e encaminhados para as etapas seguintes.

Celulares de roubos e grandes eventos

A investigação aponta dois principais fluxos de abastecimento dessa estrutura.

Um deles seria formado por aparelhos obtidos em roubos e furtos, incluindo casos em que criminosos quebram vidros de veículos para pegar celulares e outros objetos. Parte desses aparelhos teria sido localizada posteriormente na região da 25 de Março, especialmente em pontos comerciais como o Shopping Mundo Oriental e a Galeria Pagé.

O segundo fluxo estaria relacionado a grandes eventos, shows, festivais e aglomerações.

Entre os eventos citados na investigação estão Lollapalooza, Parada do Orgulho LGBT+, Virada Cultural, The Town, Tomorrowland e Só Track Boa.

Nesses locais, segundo o inquérito, os criminosos atuariam de forma organizada, com divisão de tarefas.

Os chamados “batedores” identificariam possíveis vítimas, enquanto os “recolhedores” receberiam os celulares logo depois dos furtos. A rapidez na transferência dos aparelhos, segundo os investigadores, reduziria o risco de flagrante e aceleraria o encaminhamento para os demais integrantes da cadeia.

Investigação começou em apurações anteriores

A Operação Frankmobile é resultado de uma investigação que também aproveitou informações obtidas em operações anteriores, entre elas a Salus et Dignitas.

Os investigadores analisaram dados extraídos de celulares e computadores apreendidos, além de relatórios de inteligência, rastreamento de aparelhos, informações fiscais e financeiras e depoimentos. A partir desse cruzamento, o Ministério Público identificou, segundo a investigação, uma estrutura que não se limitaria aos autores dos roubos e furtos.

A hipótese é de que os celulares sejam rapidamente absorvidos por uma rede especializada em receber, desbloquear, adulterar e revender os equipamentos. O objetivo da operação é atingir justamente essas etapas intermediárias e comerciais, consideradas pelos investigadores fundamentais para a manutenção do mercado de celulares provenientes de crimes.

As investigações continuam para esclarecer a participação individual dos envolvidos e identificar toda a extensão da estrutura apontada pelo Ministério Público.

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