Passarela provisória, problema permanente: até quando Guarulhos vai adiar a solução definitiva?
Estrutura instalada como provisória em 2024 volta a ser deslocada após nova interdição; entre promessas, ações emergenciais e discurso político, moradores continuam esperando a obra definitiva.
A Prefeitura de Guarulhos concluiu nesta sexta-feira (18) a remoção e a instalação da passarela de pedestres da Avenida Jamil João Zarif em um novo ponto sobre o Rio Baquirivu-Guaçu. A estrutura, utilizada diariamente por trabalhadores que seguem para o Aeroporto Internacional de Guarulhos, deverá ser liberada na próxima semana.
A intervenção foi necessária depois que a Defesa Civil interditou a passagem, em 14 de setembro, após as fortes chuvas provocarem desbarrancamento às margens do rio e aumentarem o risco de instabilidade da estrutura.
A medida resolve, ao menos por enquanto, o problema imediato de quem precisa atravessar o rio. Mas o episódio também recoloca uma pergunta que acompanha a região há mais de dois anos: por que uma estrutura apresentada como provisória continua sendo tratada como solução para um problema que deveria ter sido resolvido de forma definitiva?
Uma solução provisória que virou permanente
A história da passarela ajuda a entender o tamanho do problema.
Em maio de 2024, a antiga ponte de pedestres que ligava a Jamil João Zarif ao complexo aeroportuário foi interditada depois que as chuvas provocaram erosão e comprometimento do solo às margens do Baquirivu-Guaçu. A Prefeitura instalou uma nova passarela poucos dias depois para evitar que os trabalhadores fossem obrigados a fazer o desvio pelo Terminal Taboão.
Na época, porém, a própria administração municipal classificou a nova estrutura como provisória e afirmou que ela seria substituída por uma passagem definitiva como parte das obras de canalização do Rio Baquirivu, então relacionadas ao programa Viva Baquirivu.
O problema é que o provisório atravessou 2024, 2025 e chegou a 2026.
Em janeiro de 2025, por exemplo, registros mostraram que o aumento do nível do Baquirivu-Guaçu já colocava novamente em risco os pedestres que utilizavam a passagem. Na ocasião, a estrutura provisória continuava instalada e as obras de macrodrenagem ainda não haviam solucionado a situação no local.
Agora, depois de uma nova interdição provocada pelas chuvas, a resposta do município foi retirar a passarela e colocá-la cerca de 10 metros adiante, em uma área mais afastada do trecho onde ocorreu o desmoronamento. Segundo a Prefeitura, foi construída uma nova base com brocas e blocos de concreto, mantendo distância da margem do rio e evitando o apoio direto sobre a contenção existente. A medida busca aumentar a estabilidade da estrutura.
É uma intervenção necessária para restabelecer a passagem. Mas ela também evidencia o caráter recorrente do problema.
O trabalhador paga a conta da falta de uma solução estrutural
A passarela não é apenas uma ligação entre dois pontos da cidade.
Ela funciona como um importante atalho para trabalhadores do aeroporto que chegam de ônibus pela Jamil João Zarif e fazem a última parte do trajeto a pé. Moradores de bairros como São João, Malvinas, Lavras e Seródio estão entre os usuários afetados.
Quando a passagem é fechada, o deslocamento muda completamente.
A alternativa passa pelo Terminal Metropolitano Taboão, a cerca de três quilômetros do acesso interditado. Em 2024, reportagens registraram que o desvio poderia representar aproximadamente 40 minutos de caminhada, dependendo do trajeto. Em outras palavras, uma falha de infraestrutura pública que ocorre em um ponto estratégico acaba sendo transferida para quem precisa chegar ao trabalho diariamente.
Não se trata apenas de uma obra de engenharia. É uma questão de mobilidade urbana, acesso ao emprego e planejamento da cidade.
Prefeitura cria linhas de ônibus para contornar o problema
Enquanto a passarela não é liberada, a Prefeitura colocou em operação uma espécie de plano de contingência.
A partir desta quinta-feira (17), entrou em circulação a linha 497, ligando o Jardim Santa Paula ao Terminal Taboão e à Estação Aeroporto. A linha 488 também teve o itinerário ampliado até as proximidades da passarela da CPTM.
As medidas reduzem o impacto da interdição e podem facilitar o deslocamento dos passageiros.
Mas existe uma diferença importante entre amenizar o problema e resolver o problema.
Ônibus adicionais, mudanças de itinerário e criação de linhas emergenciais são instrumentos válidos para situações excepcionais. O questionamento que permanece é por que esse tipo de operação precisa voltar a ser mobilizado para uma ligação que deveria contar com infraestrutura permanente.
O problema maior está debaixo da passarela
A própria Prefeitura reconhece que o Baquirivu-Guaçu é um dos eixos que precisam de intervenção estrutural.
O programa Novo Baquirivu prevê justamente ações de combate às enchentes, incluindo ampliação da calha do rio, recuperação de áreas de várzea e construção de reservatórios. O programa também prevê intervenções viárias na região da Jamil João Zarif e da Avenida Natália Zarif, além de melhorias nos corredores de acesso ao Aeroporto.
É justamente nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre uma passarela e passa a ser sobre planejamento urbano.
Se o problema recorrente é provocado pela relação entre a estrutura de travessia, a margem do rio, o nível da água e a drenagem da região, deslocar a passarela alguns metros resolve apenas uma parte da equação.
A estrutura pode ficar mais distante do ponto de erosão, como afirma a Prefeitura. Mas a pergunta que permanece é outra: qual é o cronograma para que a região deixe de depender de soluções provisórias e passe a contar com uma infraestrutura definitiva, integrada às obras de drenagem e mobilidade?
Mais de dois anos depois, a pergunta continua
Quando a passarela foi instalada, em 2024, a expectativa anunciada era de que a estrutura provisória fosse substituída por uma definitiva nas semanas seguintes, dentro das obras de canalização do Baquirivu.
O calendário, porém, mostrou outra realidade.
Em setembro de 2026, a população continua dependendo da mesma lógica emergencial: a estrutura apresenta risco, a Defesa Civil interdita, a Prefeitura desloca, instala uma nova base e promete liberar novamente.
É uma sequência que resolve a urgência, mas não necessariamente elimina a causa.
E esse é o ponto que merece ser cobrado do poder público: qual é a solução definitiva para a travessia e qual é o prazo real para que ela seja entregue?
A realocação pode devolver aos trabalhadores o caminho mais curto até o aeroporto. As novas linhas de ônibus podem reduzir o impacto durante a obra. Mas nenhuma dessas medidas substitui uma infraestrutura planejada para suportar as condições do rio e as necessidades de mobilidade de uma região que atende um dos principais aeroportos do país.
Por enquanto, a Prefeitura entrega mais uma solução emergencial para um problema que já deixou de ser novo.
E a população continua esperando que o provisório, finalmente, deixe de ser permanente.
