Novas imagens de câmeras corporais reacendem debate sobre ação da PM que terminou com a morte de jovem em Paraisópolis
Vídeos obtidos com exclusividade mostram Igor Oliveira de Moraes Santos rendido antes dos disparos; policiais absolvidos pelo Tribunal do Júri, mas defesa da família recorre da decisão
Novas imagens das câmeras corporais dos policiais militares envolvidos na morte de Igor Oliveira de Moraes Santos, trouxeram novos elementos para um dos casos mais emblemáticos envolvendo o uso da força por agentes da Polícia Militar de São Paulo.
As gravações registram toda a sequência da ocorrência, desde os instantes que antecedem a entrada da equipe policial na residência, durante uma operação em Paraisópolis, na Zona Sul da capital paulista, até as conversas entre os agentes após os disparos que atingiram o jovem.
Segundo a Polícia Militar, os policiais envolvidos não sabiam que as câmeras corporais estavam ligadas durante a ação, circunstância que faz com que os registros revelem diálogos espontâneos entre os agentes.
As imagens mostram Igor rendido, com as duas mãos visíveis e sem apresentar resistência aparente ou realizar movimentos bruscos imediatamente antes de ser baleado. O conteúdo dos vídeos passou a ser um dos principais pontos levantados pela defesa da família, que sustenta haver incompatibilidade entre as gravações e a versão apresentada pelos policiais durante a investigação e no julgamento.
Outro trecho que chama atenção é o comportamento dos militares após os disparos. Mesmo sem a presença de terceiros, os policiais passam a conversar em voz baixa em pelo menos três momentos. Em uma dessas ocasiões, um dos agentes responsáveis pelos disparos faz referência à câmera corporal, segundo o material obtido pela reportagem.
Julgamento e recurso
No último dia 30, os soldados Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima, apontados como autores dos disparos, foram absolvidos pelo Tribunal do Júri.
Já os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus continuam respondendo ao processo sob a acusação de terem colaborado com a ação. O caso deles foi desmembrado e ainda não há data definida para julgamento.
A defesa da família de Igor anunciou que recorrerá da decisão que absolveu os dois policiais. Os advogados argumentam que o veredicto dos jurados contraria as provas produzidas durante a instrução processual, especialmente diante das imagens registradas pelas câmeras corporais.
O recurso será analisado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que decidirá se mantém a absolvição ou determina a realização de um novo julgamento.
Enquanto isso, o caso volta a colocar em discussão o papel das câmeras corporais como instrumento de transparência na atuação policial e a forma como esses registros podem influenciar a apuração de ocorrências envolvendo uso letal da força.
