PF revela mensagens de Vorcaro a Moraes antes de prisão e aponta encontros entre banqueiro e ministro do STF

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Relatório tornado público por André Mendonça registra agradecimentos, pedidos relacionados às investigações e ao menos seis encontros entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes

Novas informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ampliaram nesta terça-feira (1º) o foco da investigação sobre a relação do banqueiro com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

O ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, retirou o sigilo de documentos produzidos pela Polícia Federal que analisaram mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro. O material registra contatos entre o empresário e Moraes antes da prisão do banqueiro, em novembro de 2025, além de indícios de encontros presenciais entre os dois.

Em uma das mensagens, enviada em 14 de novembro de 2025, três dias antes de ser preso, Vorcaro afirmou ao interlocutor que tinha uma “gratidão” especial a ele e disse que sua família, funcionários e parceiros teriam uma “dívida de vida” com o ministro e sua família.

A mensagem foi enviada depois de uma conversa sobre um encontro na casa do empresário.

“Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”, escreveu Vorcaro, segundo o relatório da PF.

PF identifica ao menos seis encontros

A análise dos dados do celular levou os investigadores a identificar indícios de pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes entre novembro de 2024 e agosto de 2025.

Segundo a investigação, as reuniões teriam ocorrido em diferentes locais, incluindo a residência do banqueiro. Em algumas situações, mensagens de funcionários de Vorcaro indicavam a chegada do ministro ou tratavam da organização dos encontros. Também aparecem registros de interlocutores ajudando a marcar reuniões.

Um dos encontros ocorreu na véspera da mensagem em que Vorcaro agradeceu ao ministro.

Na madrugada de 14 de novembro, o banqueiro escreveu perguntando se estava mantido um encontro em sua casa. Mais tarde, confirmou que chegaria ao local por volta das 14h30. Horas depois, enviou a mensagem em que afirmou ter uma “dívida de vida” com Moraes.

Vorcaro perguntou se deveria deixar o Brasil

As mensagens analisadas pela PF também mostram que, dias antes de sua prisão, Vorcaro teria consultado o interlocutor identificado pelos investigadores como Moraes sobre o risco de ser preso.

Em 15 de novembro de 2025, segundo o material, ele perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”

Dois dias depois, em 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando tentava embarcar em um jato particular.

A PF afirma que as mensagens eram enviadas de uma maneira pouco convencional. Vorcaro escrevia os textos no aplicativo Notas do celular, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp como mensagem de visualização única. Os investigadores dizem ter conseguido recuperar os conteúdos por meio do cruzamento de imagens, metadados, arquivos temporários e registros de utilização do aparelho.

Investigação sobre o Banco Master

A prisão de Vorcaro ocorreu no contexto da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal para investigar suspeitas envolvendo operações financeiras do Banco Master.

Segundo informações do inquérito, as operações sob investigação envolveriam cerca de R$ 12 bilhões em cessões de carteiras de crédito entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB).

O Banco Master acabou sendo liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. A PF também investiga se Vorcaro tentou utilizar sua proximidade com autoridades para obter informações ou interferir no avanço das apurações.

Contrato de R$ 131 milhões entra no caso

Outro ponto revelado nesta terça-feira envolve o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.

Segundo análise da Polícia Federal sobre os metadados de um documento, Moraes teria feito alterações em uma versão do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da advogada. O registro técnico do arquivo indica edição feita por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

O escritório confirmou que Moraes teve acesso ao documento, mas afirmou que isso ocorreu porque o setor de compliance consultou o ministro, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar a existência de eventuais impedimentos legais. Segundo a banca, não havia impedimento porque Moraes jamais teria julgado processo envolvendo o Banco Master. O escritório também afirma que os serviços contratados foram efetivamente prestados.

Vorcaro cobrava pagamentos ao escritório

As mensagens recuperadas pela PF mostram ainda que Vorcaro acompanhava pessoalmente os pagamentos ao escritório de Viviane.

Em uma conversa com funcionários, o banqueiro classificou o contrato como um dos mais importantes e reclamou de atrasos. Segundo o relatório, ele chegou a orientar que os pagamentos fossem realizados regularmente e pediu que o contrato tivesse acesso restrito dentro do banco.

A PF também identificou uma transferência de R$ 3,4 milhões ao escritório em fevereiro de 2024. Em outra mensagem, Vorcaro demonstrou preocupação depois de saber que um pagamento havia sido feito por Pix e afirmou que isso “não é bom”, segundo o relatório.

Mendonça quer análise pública do caso

Ao retirar o sigilo dos documentos, André Mendonça indicou que a análise do material deverá ser feita de forma pública pelo plenário do Supremo.

O ministro também determinou o encaminhamento de parte dos documentos para manifestação da Procuradoria-Geral da República. Em um dos pontos, Mendonça pediu que a PGR se manifeste sobre mensagens nas quais aparecem referências a “Andrei” e “Paulo”, que a PF relaciona, respectivamente, ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O que diz Moraes

O escritório de Alexandre de Moraes e Viviane Barci apresentou justificativa para o acesso ao contrato e negou a existência de impedimento legal para a prestação dos serviços.

Moraes, por sua vez, já havia negado anteriormente que determinadas mensagens atribuídas a ele fossem de sua autoria. Em manifestações anteriores, o ministro classificou acusações baseadas nesses conteúdos como ilações e afirmou que elas buscavam atacar o Supremo Tribunal Federal.

O material agora tornado público por André Mendonça deverá ser analisado pelas autoridades responsáveis pelo caso. A divulgação das mensagens e dos registros de encontros amplia a investigação sobre a relação entre o ex-banqueiro e o ministro e coloca sob escrutínio também as circunstâncias do contrato firmado entre o Banco Master e o escritório da esposa de Moraes.

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