Operação Frank Mobile mira máfia de celulares roubados que movimenta cadeia de furtos, fraudes e revenda

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Ação do Ministério Público e das polícias Civil e Militar cumpre sete prisões e 84 mandados de busca em São Paulo e Goiás.

Uma operação do Ministério Público de São Paulo e das polícias Civil e Militar foi deflagrada na manhã desta quinta-feira (10) para desarticular uma organização suspeita de manter uma cadeia nacional de furto, roubo, receptação, adulteração e revenda de celulares.

Batizada de Operação Frank Mobile, a ação cumpre sete mandados de prisão temporária e 84 mandados de busca e apreensão em diferentes endereços. Os alvos incluem imóveis, lojas, empresas, depósitos e locais apontados como laboratórios clandestinos de celulares.

A investigação descreve uma estrutura dividida em diferentes núcleos, responsável por receber rapidamente os aparelhos subtraídos, tentar acessar dados e contas bancárias das vítimas, modificar os dispositivos e recolocá-los no mercado.

Como funcionava o esquema

De acordo com a investigação, a cadeia criminosa começava nas ruas. Os aparelhos eram obtidos por meio de roubos à mão armada, furtos de celulares das mãos de pedestres e ataques a veículos parados no trânsito, com criminosos quebrando os vidros para retirar os telefones.

Os investigadores identificaram diferentes caminhos para os aparelhos, dependendo da forma como foram roubados ou furtados. Celulares relacionados a roubos com grave ameaça e a ataques contra veículos aparecem principalmente associados à região da Rua 25 de Março, incluindo o Shopping Mundo Oriental e a Galeria Pagé.

Já aparelhos furtados durante grandes eventos e aglomerações foram rastreados com frequência até a região da Rua Guaianases, no centro da capital. Entre os eventos citados na investigação estão Lollapalooza, Parada do Orgulho LGBT+, Virada Cultural, The Town, Tomorrowland e Só Track Boa.

Nesses locais, os criminosos teriam funções específicas. Os chamados “batedores” identificavam vítimas e realizavam os furtos no meio das multidões. Em seguida, os “recolhedores” recebiam os aparelhos para retirar rapidamente os celulares do local e dificultar a identificação dos autores.

“Icloudeiros” tentavam acessar contas bancárias

Depois de retirados das vítimas, os celulares eram encaminhados rapidamente para receptadores especializados.

Uma das funções identificadas pela investigação era desempenhada pelos chamados “icloudeiros”, responsáveis por tentar desbloquear os aparelhos, redefinir senhas e contornar mecanismos de segurança para acessar contas vinculadas aos celulares.

O objetivo, segundo o Ministério Público, não era apenas recuperar o valor do aparelho. Os criminosos também buscavam explorar os dados pessoais e financeiros armazenados nos dispositivos. Nos casos em que conseguiam obter senhas, principalmente depois de roubos em que as vítimas eram obrigadas a informar os códigos, os suspeitos poderiam tentar realizar transferências por Pix, contratar empréstimos e acessar outros serviços financeiros.

Segundo reportagem do Estadão, investigadores apontam que alguns aparelhos poderiam chegar aos especialistas em desbloqueio poucos minutos após o crime.

Celulares passavam por “laboratórios”

A terceira etapa da cadeia envolvia locais utilizados para modificar os aparelhos e dificultar a identificação de sua origem.

Segundo a investigação, técnicos atuavam em áreas de comércio popular de eletrônicos, principalmente na região da Santa Ifigênia e no Shopping Mundo Oriental.

Nesses locais, os aparelhos poderiam ser desmontados e ter componentes como placas-mãe, telas e carcaças substituídos. Os investigadores também identificaram procedimentos destinados a alterar o IMEI, código de identificação exclusivo de cada aparelho, dificultando o rastreamento dos celulares.

Depois da adulteração, os dispositivos poderiam voltar ao mercado como aparelhos completos ou ser desmontados para a venda de peças.

Peças também eram fonte de lucro

A investigação aponta que o esquema não dependia apenas da venda dos celulares inteiros. A organização também lucraria com a comercialização de telas, baterias, placas, câmeras e outros componentes retirados dos aparelhos.

Essas peças poderiam ser misturadas a componentes de origem regular e revendidas em estabelecimentos que, aparentemente, funcionariam de forma legal.

Os investigadores também apontam a participação de empresas que emitiriam notas fiscais e documentos para conferir aparência de legalidade aos produtos de origem ilícita.

Rua Guaianases virou foco da investigação

A região da Rua Guaianases, no centro de São Paulo, aparece como um dos principais pontos da estrutura investigada. Segundo os investigadores, pesquisas nos sistemas policiais identificaram mais de 500 ocorrências envolvendo celulares na região em pouco mais de dois anos.

Outro elemento considerado importante foram os rastreamentos realizados pelas próprias vítimas. Em diversos casos, os sistemas de localização dos aparelhos apontaram para a Rua Guaianases e vias próximas, como Aurora e Timbiras. Para os investigadores, a repetição dos sinais de celulares pertencentes a vítimas sem relação entre si indica que a região funcionaria como um importante polo de recepção e distribuição dos aparelhos.

A investigação aponta ainda que os celulares furtados em grandes eventos apresentavam maior concentração de rastreamentos na região.

Investigação começou a partir de outras operações

A Operação Frank Mobile é resultado do cruzamento de informações obtidas em diferentes investigações realizadas nos últimos anos. Um dos principais pontos de partida foi a Operação Salus et Dignitas, realizada em 2024 pelo Ministério Público e pela Polícia Civil na região da Cracolândia.

A partir da análise de celulares e outros equipamentos apreendidos naquela operação, os investigadores encontraram conversas, relações comerciais e movimentações que ajudaram a identificar possíveis integrantes da cadeia de receptação e comercialização de aparelhos roubados.

Os dados foram cruzados com rastreamento de celulares, relatórios de inteligência, informações fiscais, movimentações financeiras e outras apreensões.

Segundo a investigação, esse conjunto de elementos permitiu identificar conexões entre os responsáveis pelos furtos, receptadores, técnicos especializados em desbloqueio, comerciantes de peças e empresas utilizadas na circulação dos produtos.

Justiça autorizou prisões e buscas

Com base nos elementos reunidos durante as apurações, a Justiça autorizou as prisões temporárias e os mandados de busca e apreensão cumpridos nesta quinta-feira.

A operação tem como objetivo atingir principalmente os integrantes da estrutura responsável por absorver os celulares roubados, adulterar os aparelhos e componentes, acessar dados das vítimas e recolocar os produtos no mercado.

A investigação continua para identificar todos os integrantes e dimensionar o volume financeiro movimentado pelo esquema. Até o momento, os suspeitos são investigados e as acusações ainda dependem do avanço das apurações e das decisões judiciais.

A operação também reforça uma característica apontada pelos investigadores: o mercado ilegal de celulares não termina no momento do roubo ou furto. Existe uma cadeia especializada capaz de receber o aparelho em poucos minutos, tentar explorar os dados da vítima, modificar seus identificadores e recolocá-lo no mercado, ampliando o prejuízo causado pelo crime.

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