Ponte do Baquirivu: Guarulhos convive com um acesso que virou disputa política e ninguém apresenta uma solução definitiva
Por que, dois anos depois da instalação emergencial da passarela e mais de uma década depois do fechamento da antiga ligação, ainda não existe uma solução definitiva plenamente funcional?
A interdição da passagem de pedestres sobre o Rio Baquirivu-Guaçu, na Avenida Jamil João Zarif, voltou a expor uma ferida antiga de Guarulhos: a falta de uma ligação segura e permanente entre bairros da cidade e o Aeroporto Internacional de São Paulo.
A Defesa Civil interditou a estrutura na segunda-feira (14), diante do aumento do volume do rio provocado pelas chuvas. A passagem é utilizada diariamente por trabalhadores que chegam de ônibus à região e seguem a pé para o aeroporto, além de moradores que dependem do acesso.
O problema, entretanto, não começou com a chuva desta semana.
Ele atravessa administrações municipais, governos estaduais, diferentes governos federais e a própria história da concessão do aeroporto à iniciativa privada.
E talvez a pergunta mais importante seja justamente esta:
como um acesso essencial para trabalhadores e moradores pode permanecer em situação provisória por tantos anos?
De quem é a responsabilidade?
A resposta não é tão simples quanto apontar apenas para a Prefeitura ou para a GRU Airport.
A Prefeitura de Guarulhos afirma que a passagem interditada é uma estrutura de responsabilidade do poder público municipal e informou que a Defesa Civil tomou a decisão por segurança, enquanto equipes de manutenção permanecem no local.
A GRU Airport, por sua vez, declarou que a ponte localizada na região da Rua Jamil João Zarif, utilizada como acesso de pedestres ao aeroporto, é de responsabilidade do poder público municipal.
Há, portanto, uma informação objetiva: a concessionária não assume a responsabilidade pela estrutura da ponte de acesso externo.
E o próprio contrato de concessão ajuda a entender a divisão. O Plano de Exploração Aeroportuária da ANAC estabelece que a concessão da GRU Airport abrange o Complexo Aeroportuário, incluindo suas instalações e vias de acesso internas, e determina à concessionária obrigações de manutenção e infraestrutura dentro desse complexo.
Isso não significa, porém, que União, Estado e concessionária estejam completamente fora do problema.
O aeroporto é uma infraestrutura federal concedida à iniciativa privada. A ANAC é responsável pela regulação e fiscalização da concessão. O Governo Federal participou da estruturação da concessão. O Estado tem responsabilidades sobre o sistema metropolitano e acessos sob sua jurisdição. E o município responde pela infraestrutura urbana que está sob sua competência.
O problema é justamente essa fronteira de responsabilidades.
Quando a ponte está interditada, o trabalhador não pergunta qual ente federativo tem competência jurídica sobre a estrutura.
Ele precisa chegar ao emprego.
O problema não nasceu em 2026
A história mostra que essa discussão é muito anterior à atual interdição.
Em 2013, a ligação sobre o Baquirivu foi fechada para circulação de veículos. A discussão sobre o acesso ao aeroporto se arrastou durante os anos seguintes, envolvendo Prefeitura, concessionária, União, Câmara Municipal, sindicatos e órgãos de trânsito.
Em 2015, trabalhadores do setor aeroportuário e moradores já pressionavam pela reabertura da ponte e denunciavam os impactos provocados pelo fechamento. Em 2017, uma audiência pública promovida pelo então Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil discutiu uma solução para o problema. O governo federal chegou a estabelecer um prazo de 45 dias para buscar uma alternativa. O prazo terminou sem que a questão fosse definitivamente resolvida.
Em 2018, a Câmara de Guarulhos criou uma Comissão Especial de Inquérito para discutir a relação entre o aeroporto e o município. Naquele momento, a ponte já era tratada como um problema de mobilidade urbana e de acesso à região aeroportuária.
Ou seja:
não faltou tempo para discutir. Faltou transformar discussão em solução permanente.
A ponte virou provisória e o provisório virou permanente
Em maio de 2024, uma nova etapa do problema aconteceu.
A antiga travessia de pedestres cedeu após fortes chuvas. A Prefeitura instalou uma passarela provisória para permitir novamente a passagem de trabalhadores e moradores. A solução deveria ser temporária, enquanto avançavam as obras de macrodrenagem do Baquirivu-Guaçu.
Mas a estrutura permaneceu em utilização.
E chegamos a setembro de 2026 com a mesma lógica: uma passagem provisória sendo utilizada como ligação cotidiana para trabalhadores de uma das maiores infraestruturas aeroportuárias do país.
Esse é o ponto que merece uma cobrança pública mais profunda.
Não se trata apenas de perguntar por que a ponte foi interditada.
A pergunta é:
por que, dois anos depois da instalação emergencial da passarela e mais de uma década depois do fechamento da antiga ligação, ainda não existe uma solução definitiva plenamente funcional?
O Baquirivu virou obra permanente de promessa
A Prefeitura possui atualmente um programa específico para enfrentar o problema.
O Programa de Macrodrenagem e Controle de Cheias da Bacia do Rio Baquirivu-Guaçu é financiado majoritariamente pela CAF — Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe — com contrapartida municipal.
Documentos apresentados pelo próprio município em 2026 mostram que o programa possui investimento total de US$ 120 milhões, sendo US$ 96 milhões financiados pela CAF e US$ 24 milhões de contrapartida municipal.
As obras incluem canalização, requalificação urbana e intervenções nos corredores Jamil João Zarif e Natália Zarif. O problema é que a própria atualização oficial mostra que o programa ainda está em execução.
Em junho de 2026, o corredor Jamil João Zarif apresentava 80% de execução da requalificação viária e 90% das travessias previstas. O financiamento também teve seu prazo de desembolso ampliado para outubro de 2027.
Isso significa que existe uma obra estruturante em andamento.
Mas também significa que a solução ainda não chegou completamente à vida de quem precisa atravessar o rio todos os dias.
E onde entram os políticos?
É justamente aqui que o debate deixa de ser apenas sobre engenharia e passa a ser também sobre política.
O Baquirivu é um problema com enorme potencial eleitoral.
De um lado, trabalhadores do aeroporto. Do outro, moradores de bairros populosos. No meio, uma das maiores estruturas econômicas da região metropolitana. É um público numeroso, visível e diretamente afetado.
Por isso, a ponte aparece periodicamente em discursos, reuniões, vídeos, placas, promessas e cobranças políticas.
O problema é que a fotografia da promessa é imediata; a obra de infraestrutura é lenta.
Em 2018, por exemplo, vereadores já discutiam o fechamento da ponte e cobravam respostas da concessionária e do poder público. O assunto voltou a aparecer em 2024, quando a estrutura provisória precisou ser instalada.
E agora, em 2026, retorna ao debate justamente quando as chuvas mostram novamente a fragilidade da solução. Não é necessário afirmar que determinado político esteja usando o problema apenas para conquistar votos. Isso exigiria evidências sobre a intenção individual de cada agente público.
Mas há um fato político que pode ser constatado:
a pauta atravessou anos, governos e eleições sem que a população recebesse uma solução definitiva.
E isso permite uma cobrança muito mais objetiva do eleitor:
Quem promete resolver a ponte precisa apresentar projeto, orçamento, cronograma, responsável pela execução e prazo de entrega.
Não basta aparecer quando a água sobe.
E o Estado? E a União?
Também é simplista transformar a questão em uma disputa exclusivamente municipal.
O aeroporto é uma concessão federal. A ANAC regula o contrato. A infraestrutura aeroportuária está inserida em uma área cuja origem e organização envolvem patrimônio e competências federais. O sistema de transporte metropolitano também envolve o Estado.
Ao mesmo tempo, a estrutura atualmente interditada é apontada pela Prefeitura e pela GRU Airport como responsabilidade do município. Isso cria uma situação típica de grandes regiões metropolitanas brasileiras: um problema concreto para o cidadão atravessa diferentes esferas administrativas, mas nenhuma delas, isoladamente, resolve toda a equação.
A solução definitiva precisa considerar não apenas a ponte, mas também drenagem, mobilidade, transporte coletivo, segurança, acesso de pedestres e a integração entre a cidade e o complexo aeroportuário.
Quem paga a conta enquanto o problema não é resolvido?
O trabalhador.
Com a ponte fechada, funcionários que vivem em bairros como São João, Malvinas, Lavras e Seródio precisam buscar alternativas para chegar ao aeroporto.
Passageiros que utilizam o transporte sobre trilhos também são afetados, já que o deslocamento até os terminais depende de conexões rodoviárias. A alternativa passa a ser o ônibus — mas, segundo relatos relacionados à interdição, a quantidade de veículos não tem sido suficiente para absorver toda a demanda, aumentando o tempo de espera e a lotação.
É uma consequência previsível de qualquer interrupção de um corredor de pedestres que concentra diariamente trabalhadores e usuários do aeroporto.
E existe ainda uma questão de segurança.
Quando uma passagem é interditada, as pessoas procuram outro caminho.
Quanto mais longa e difícil a alternativa, maior a possibilidade de que alguém tente atravessar por locais inadequados ou percorra trajetos mais perigosos.
A pergunta que Guarulhos precisa fazer
O Baquirivu não é apenas uma ponte.
É o retrato de um problema maior: a dificuldade histórica de integrar uma cidade que abriga um dos principais aeroportos do país com a população que vive ao seu redor.
A concessão do aeroporto começou em 2012 e a GRU Airport assumiu a gestão integral em fevereiro de 2013. O contrato de concessão tem prazo até 2032. Passados mais de 13 anos desde o início da concessão, e décadas desde que a região já apresentava problemas de mobilidade, a pergunta continua atual:
quem será responsável por entregar a solução definitiva — e quando ela estará pronta?
Enquanto Prefeitura, concessionária, Estado e União discutem competências, o trabalhador continua precisando atravessar o Baquirivu para chegar ao emprego. E é justamente por isso que a população não deveria ser chamada apenas para assistir a mais uma disputa de versões.
Deveria ser apresentada a ela uma resposta simples:
qual é o projeto, quem vai executar, quanto vai custar e qual é a data em que essa travessia deixará de ser provisória?
Porque, depois de tantos anos, o que falta ao Baquirivu não é mais uma promessa. É uma solução que sobreviva à próxima chuva e à próxima eleição.
