Debate é parte da eleição: ausência de Derrite e André do Prado deixa eleitor sem respostas

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Candidatos ao Senado haviam confirmado presença, participado das reuniões preparatórias e acompanhado o sorteio da ordem no debate; na manhã do evento, alegaram uma “agenda inadiável”

Há uma diferença importante entre fazer campanha e se submeter ao debate público. Em uma eleição para o Senado, essa diferença ganha ainda mais peso: o eleitor não escolhe apenas um nome para ocupar uma cadeira, mas dois representantes que terão mandato de oito anos e participação direta em decisões que podem afetar o país.

Foi nesse contexto que a ausência de Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) no debate promovido pelo g1, nesta sexta-feira (25), chamou atenção.

Os dois candidatos haviam confirmado presença no encontro. Segundo o g1, assessores das campanhas participaram das reuniões preparatórias, assinaram as regras e acompanharam, na noite anterior, o sorteio que definiu a posição dos candidatos no estúdio. Na manhã do debate, porém, as duas campanhas comunicaram conjuntamente que os candidatos não poderiam comparecer por causa de uma “agenda inadiável”.

A justificativa apresentada pelas campanhas foi de que uma sequência intensa de debates e compromissos exigiu uma reorganização excepcional da agenda. As duas também afirmaram que a ausência seria pontual e que os candidatos participariam de outro debate, marcado para o dia 30.

A explicação existe. Mas, do ponto de vista político, ela não encerra a discussão.

Se a eleição é uma disputa de ideias, por que faltar ao confronto?

Debate eleitoral não deveria ser tratado apenas como mais um compromisso de campanha. É um dos poucos momentos em que candidatos são colocados diante das mesmas perguntas, sob as mesmas regras e, principalmente, diante de seus adversários.

É ali que o eleitor pode comparar discursos, prioridades e propostas.

Uma entrevista individual permite que cada candidato escolha o ambiente, o interlocutor e, em alguma medida, o terreno em que pretende ser questionado. No debate, essa proteção diminui. O adversário pode perguntar. O jornalista pode cobrar. O eleitor pode comparar.

Por isso, quando um candidato que disputa um mandato de oito anos decide não participar de um encontro previamente confirmado, a pergunta é inevitável: o que o eleitor deixa de saber quando um candidato não está diante dos seus concorrentes?

Não se trata de afirmar que a ausência tenha uma motivação específica. As campanhas apresentaram uma justificativa objetiva. Mas cabe ao jornalismo registrar que a decisão produz uma consequência concreta: menos uma oportunidade pública para confrontar propostas e posições.

O eleitor escolhe dois senadores

A importância do debate aumenta porque, em 2026, o eleitor paulista escolherá dois nomes para o Senado.

A disputa, portanto, não é uma eleição em que basta identificar um candidato. O eleitor precisa comparar diferentes projetos e decidir quais dois nomes pretende enviar para Brasília.

E há uma característica peculiar do Senado que costuma ficar em segundo plano durante as campanhas: o mandato é de oito anos. Um senador participa de votações sobre projetos de lei, emendas constitucionais, indicações para tribunais superiores, autoridades de instituições públicas, além de exercer funções de fiscalização do Executivo.

Por isso, conhecer as posições dos candidatos não é uma questão secundária.

A ausência acontece em uma disputa apertada

A decisão de não participar do debate ocorre justamente em uma eleição na qual o cenário paulista aparece bastante competitivo.

Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (24) mostra Marina Silva com 15%, Simone Tebet com 14%, André do Prado com 12% e Guilherme Derrite também com 12%. Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, os quatro aparecem em situação de empate técnico.

Ou seja: Derrite e Prado não estão disputando uma eleição em que seus lugares estejam previamente definidos. Ao contrário, os dois estão entre os nomes que disputam as duas vagas disponíveis.

Nesse cenário, cada aparição pública pode ser relevante para o eleitor que ainda compara candidatos.

E os outros candidatos foram ao debate

Enquanto Derrite e Prado não compareceram, os demais convidados participaram do encontro.

O debate reuniu Marina Silva (Rede), Simone Tebet (PSB), Geraldo Rufino (Podemos) e Soninha Francine (Cidadania).

A proposta do encontro era justamente ampliar o espaço para apresentação de propostas e permitir que os eleitores conhecessem melhor os concorrentes. O formato previa temas previamente definidos, perguntas e intervenções entre os candidatos, além de considerações finais.

É justamente aí que a ausência ganha dimensão política.

Os candidatos que compareceram tiveram a oportunidade de explicar suas ideias, responder aos adversários e apresentar suas prioridades. Derrite e Prado, por decisão de suas campanhas, ficaram fora desse espaço.

Não participar também comunica

Em política, presença e ausência produzem efeitos diferentes.

Participar de um debate significa aceitar a possibilidade de ser questionado, confrontado e eventualmente criticado. Não participar evita esse confronto naquele momento, ainda que também impeça o candidato de apresentar sua própria versão dos fatos e propostas diante de outros concorrentes.

É uma escolha legítima de campanha. Mas também é uma escolha que pode ser questionada publicamente.

Principalmente porque os dois candidatos haviam confirmado participação e suas equipes estiveram envolvidas na preparação do evento. A pergunta, portanto, não precisa ser “por que eles fugiram?”. Essa formulação atribuiria uma intenção que não foi comprovada.

A pergunta jornalisticamente mais precisa é outra:

por que uma agenda considerada inadiável só impediu a participação depois que as campanhas já haviam confirmado presença, participado das reuniões preparatórias e acompanhado o sorteio da ordem do debate?

Essa é uma resposta que cabe às campanhas oferecer aos eleitores.

O eleitor merece mais do que slogans

A política eleitoral brasileira já é marcada por campanhas cada vez mais concentradas em vídeos curtos, redes sociais, slogans e mensagens cuidadosamente produzidas.

O debate cumpre uma função diferente.

Ele permite que o eleitor veja como um candidato reage quando precisa responder a uma pergunta que não escolheu, enfrentar uma crítica que não esperava e explicar uma proposta diante de alguém que pensa diferente. Para quem pretende exercer um mandato de oito anos, esse confronto de ideias deveria ser tratado como parte central da prestação de contas ao eleitor, e não apenas como mais um compromisso de agenda.

Derrite e Prado afirmaram que estarão presentes em outro debate no dia 30. A participação futura poderá oferecer aos dois candidatos o espaço para apresentar suas propostas e responder às perguntas que ficaram sem resposta no encontro desta sexta.

Até lá, permanece uma questão legítima para o eleitor paulista: quanto de uma escolha eleitoral pode ser feita sem que os candidatos sejam colocados frente a frente para explicar, comparar e defender aquilo que pretendem fazer no Senado?

A resposta, no fim, não cabe aos candidatos nem ao jornalista. Cabe ao eleitor.

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