Debate sem candidatos: quando disputar a Presidência parece mais fácil do que enfrentar o eleitor

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Ausências sucessivas nos debates levantam uma questão incômoda: quem pretende governar o país está disposto a explicar suas ideias diante dos adversários e, principalmente, diante do eleitor?

O debate presidencial promovido pela MathiasTV nesta segunda-feira (14) deveria colocar frente a frente três candidatos ao Palácio do Planalto: Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão). No entanto, Caiado e Zema cancelaram a participação, e o encontro acabou transformado em uma sabatina com Renan Santos.

O episódio poderia ser apenas mais um compromisso de campanha alterado. Não é.

Em uma eleição em que os brasileiros escolherão quem comandará o país pelos próximos quatro anos, a sucessão de ausências em debates merece ser discutida com seriedade. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) também haviam recusado o convite para o encontro. Augusto Cury (Avante) ainda não havia definido sua participação.

A pergunta que fica é simples, mas incômoda: por que candidatos que querem governar o Brasil nem sempre estão dispostos a se sentar diante dos adversários para apresentar suas propostas e responder a questionamentos? Um debate não deveria ser encarado como um favor prestado à imprensa ou ao veículo que o organiza. É uma oportunidade para o eleitor.

É diante do contraditório que uma promessa pode ser colocada à prova. É quando um candidato precisa explicar de onde virá o dinheiro para financiar determinada proposta, como pretende enfrentar a violência, melhorar a saúde pública, gerar empregos, controlar as contas do governo ou posicionar o Brasil diante do cenário internacional.

Em uma entrevista individual, o candidato fala. Em um debate, ele também precisa responder.

E essa diferença importa.

As campanhas eleitorais se tornaram cada vez mais profissionais na produção de vídeos, cortes para redes sociais e discursos direcionados a públicos específicos. O candidato escolhe o cenário, a mensagem, o tempo e, muitas vezes, até a pergunta que deseja responder.

O debate quebra parte desse controle.

Ali existe o adversário.

Existe a réplica.

Existe a possibilidade de uma contradição ser apontada.

Existe, principalmente, o eleitor observando não apenas o que o candidato promete, mas como ele reage quando é confrontado. Não se trata de afirmar que faltar a um debate significa ter medo ou estar despreparado. Cada campanha pode apresentar suas razões, e elas devem ser consideradas.

Mas a ausência recorrente de candidatos em encontros eleitorais permite uma reflexão legítima: até que ponto o eleitor está tendo acesso suficiente aos candidatos antes de decidir seu voto? Quem pretende ocupar a Presidência da República terá de enfrentar situações muito mais difíceis do que um debate eleitoral.

Terá de negociar com o Congresso, administrar crises econômicas, responder a emergências, lidar com governadores e prefeitos, tomar decisões impopulares e explicar suas escolhas à população.

No exercício do poder, não haverá roteiro perfeito.

Também não haverá a possibilidade de simplesmente editar uma pergunta inconveniente. Por isso, participar de debates deveria ser entendido como parte da responsabilidade de quem pede ao brasileiro a confiança para governar.

O eleitor não precisa apenas de candidatos que saibam falar. Precisa de candidatos que saibam responder.

Não basta dizer que será diferente.

É preciso explicar como.

Não basta prometer melhorar o Brasil.

É preciso mostrar quanto custará, quem será beneficiado e de onde virão os recursos.

Não basta atacar o adversário.

É preciso apresentar uma alternativa.

A eleição presidencial não deveria ser uma disputa para descobrir quem produz o melhor vídeo ou quem consegue o melhor corte nas redes sociais.

É uma escolha sobre o futuro do país.

E, para escolher, o cidadão precisa comparar.

Comparar propostas.

Comparar prioridades.

Comparar capacidade.

Comparar argumentos.

Comparar, inclusive, as contradições.

Por isso, a ausência de candidatos em debates não é apenas um problema para os veículos de comunicação que organizam os encontros.

É uma perda para o eleitor.

No fim, a questão não é saber qual candidato tem mais facilidade diante das câmeras.

A questão é saber quem está disposto a colocar suas ideias à prova diante do país. Porque quem pede o voto para comandar o Brasil precisa estar preparado para algo muito maior do que uma campanha eleitoral:

precisa estar preparado para ser cobrado.

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